Repartição

É insuportável a sensação
De sentir-me inválido, imprestável…
Não tenho a menor disposição
De ajudar as pessoas em suas tarefas “simples”.
O cotidiano me entedia,
Não gosto do comum;
O trivial me afasta e consegue manter-me estático.
Ah! Quisera fazer algo realmente excitante
Que me force a ser mais do que sou;
Que me faça dar mais do que tenho.
Quisera ludibriar o tédio,
Levantar e andar.
Preciso Correr.
Não! É ilusão.

Autômato programado para sorrir,
Tirar dúvidas, bem atender; para ser educado!
Isso cansa beleza da qual não usufruo.
Não nasci para isso!
A Candeia em meus olhos se apaga
Com o sopro do tempo,
A Juventude se esvai marcando a minha face.
E toda minha energia, para onde foi?
Não quero crer que evolou-se
Enquanto estive aqui sentado
É desperdício demais.

Tenho medo de esquecer como era.
A mente arquejante esforça-se
Para fazer a mão relutante
Carimbar mais um documento,
É sacal demais.
A vitalidade se esvai sem um fim.
O que me leva a tornar-me desgostoso,
A arrepender-me
E, pensar em aposentadoria à flor da idade.
Quisera levantar e andar.
Pudera correr.
Quem dera sonhar.
O fato esquecer.

Toca o meio-dia
Uma hora para almoçar, descansar;
Para retornar ao ócio.
É tempo para sorrir,
Falar da mulher, do marido, dos filhos,
Mal do patrão… sempre a mesma coisa;
Não há novidade para mim
E, minha vida sistêmica, não permite que a tenha.
Quando chega a noite solidão ganha sentido
E a vida, lentamente, perde
O que lhe devia ser inerente.
O violão é quem me cede o braço
É o que me basta…
Não tenho muito tempo
Amanhã tenho que trabalhar.
Poema escrito em 2002.

Publicado em: on 7 Agosto 2007 at 8:24 pm Deixe um comentário